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Card sobre redes sociai e ansiedade

Gerada por IA

As redes sociais fazem parte da rotina de milhões de brasileiros. Elas aproximam pessoas, facilitam o acesso à informação e oferecem entretenimento, mas o tempo dedicado a essas plataformas também tem despertado a atenção de pesquisadores e profissionais de saúde mental.

Dados do relatório Panorama da Saúde Mental, elaborado pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, ajudam a compreender melhor essa relação. O levantamento mostrou que, entre os brasileiros que passam três horas ou mais por dia nas redes sociais, 43,5% daqueles com diagnóstico de ansiedade relataram estar nessa faixa de uso.

O dado chama a atenção, mas precisa ser interpretado com cuidado: uma associação estatística não significa necessariamente que as redes sociais sejam a causa da ansiedade. Pessoas ansiosas também podem recorrer com maior frequência ao ambiente digital, por exemplo. Ainda assim, os resultados reforçam a importância de observarmos como utilizamos essas plataformas e de que maneira elas interferem em nosso bem-estar.

O que mostrou a pesquisa?

O levantamento ouviu 3.266 brasileiros com mais de 16 anos, residentes nas cinco regiões do país, entre dezembro de 2023 e janeiro de 2024.

Quando questionados sobre o tempo diário dedicado às redes sociais, 36,9% disseram utilizá-las durante três horas ou mais por dia. Outros 35,7% permaneceram conectados entre uma e três horas; 20,9%, menos de uma hora; e 6,5% afirmaram utilizar essas plataformas poucas vezes ou não utilizá-las.

Para avaliar a saúde mental dos participantes, a pesquisa utilizou o Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental (ICASM), indicador que considera dimensões como confiança, vitalidade e capacidade de concentração e tomada de decisões.

Um aspecto particularmente interessante apareceu quando os pesquisadores compararam o índice ao tempo de uso das redes.

As melhores pontuações foram registradas entre as pessoas que utilizavam as plataformas por menos de uma hora por dia (672 pontos) e aquelas que permaneciam conectadas entre uma e três horas (665 pontos).

Já entre quem utilizava redes sociais durante três horas ou mais, a pontuação caiu para 610.

Curiosamente, o grupo que utilizava as redes poucas vezes ou nunca apresentou índice ainda menor, de 576 pontos. Esse resultado é importante porque mostra que a relação entre redes sociais e saúde mental é mais complexa do que simplesmente concluir que “quanto menos, melhor”.

Redes sociais podem causar ansiedade?

Não é possível estabelecer uma relação direta de causa e efeito apenas a partir desses dados. Ansiedade é uma condição multifatorial, influenciada por aspectos biológicos, psicológicos, sociais e ambientais.

Entretanto, determinadas características do uso excessivo ou problemático das redes podem contribuir para o sofrimento emocional.

A exposição constante à vida de outras pessoas, por exemplo, favorece comparações sociais. Como aquilo que aparece nas redes costuma representar uma versão selecionada da realidade — viagens, conquistas profissionais, relacionamentos, aparência e momentos felizes —, é fácil comparar a própria vida cotidiana com uma espécie de “vitrine” da vida alheia.

Em algumas pessoas, esse processo pode alimentar sentimentos de inadequação, frustração e baixa autoestima.

Outro fenômeno frequente é o chamado FOMO (fear of missing out), ou medo de estar perdendo alguma coisa. A necessidade de acompanhar continuamente mensagens, notícias, tendências e atualizações pode produzir um estado de alerta permanente e dificultar a desconexão.

Há ainda outros fatores relevantes, como cyberbullying, busca excessiva por aprovação, redução das interações presenciais e a dinâmica de recompensas das próprias plataformas, com notificações, curtidas e novos conteúdos capazes de estimular a repetição do comportamento.

Quando o uso deixa de ser apenas um hábito?

Mais importante do que contar exclusivamente quantas horas uma pessoa permanece conectada é observar como esse comportamento repercute em sua vida.

O sinal de alerta aparece quando existe dificuldade persistente para reduzir o uso, quando a pessoa sente necessidade de verificar o celular repetidamente ou quando as redes começam a competir com atividades fundamentais do cotidiano.

Isso pode ocorrer quando o tempo online prejudica o sono, interfere nos estudos ou no trabalho, reduz o interesse por atividades presenciais, afeta relacionamentos ou provoca sofrimento quando não é possível acessar as plataformas.

O próprio conteúdo consumido também importa. Duas pessoas podem permanecer o mesmo número de horas nas redes e apresentar experiências completamente diferentes dependendo da forma como utilizam esse tempo.

Adolescentes merecem atenção especial

A relação entre internet e saúde mental ganha importância ainda maior durante a adolescência, período marcado por profundas transformações emocionais, sociais e neurológicas.

Pesquisas têm investigado como padrões problemáticos de uso da internet podem estar associados a alterações em funções relacionadas à atenção, controle de impulsos e tomada de decisões.

Isso não significa que todo adolescente que passa muito tempo conectado desenvolverá algum transtorno. O ponto central é observar quando a experiência digital começa a ocupar o espaço de atividades importantes para um desenvolvimento saudável, como sono adequado, convivência familiar, amizades presenciais, atividade física, estudo e momentos sem estímulos constantes.

É preciso abandonar as redes sociais?

Para a maioria das pessoas, a resposta não está necessariamente em eliminar completamente as redes.

O próprio levantamento brasileiro sugere cautela com soluções simplistas: os participantes que praticamente não utilizavam essas plataformas também apresentaram pontuações mais baixas de saúde mental. As redes podem representar importantes espaços de convivência, informação, pertencimento e manutenção de vínculos.

O objetivo, portanto, é desenvolver uma relação mais consciente com a tecnologia.

Estabelecer momentos sem celular, evitar o uso próximo ao horário de dormir, desativar notificações desnecessárias e selecionar melhor os perfis e conteúdos acompanhados são medidas que podem ajudar. Também é importante preservar atividades fora das telas, especialmente exercício físico, lazer, relações presenciais e períodos de descanso.

Uma pergunta simples pode ser mais útil do que apenas olhar para o relógio: como eu me sinto depois de passar algum tempo nas redes sociais?

Se a resposta frequentemente envolve ansiedade, irritabilidade, inadequação, tristeza ou perda de controle sobre o tempo, talvez seja necessário rever essa relação.

Equilíbrio e consciência são fundamentais

As redes sociais não são, isoladamente, vilãs ou responsáveis pelos transtornos de ansiedade. Elas fazem parte de um ambiente muito mais amplo no qual fatores individuais, familiares, profissionais e sociais se relacionam.

Os dados disponíveis, porém, mostram que o modo como utilizamos essas ferramentas merece atenção.

Quando a necessidade de permanecer conectado provoca sofrimento, compromete o sono, interfere nas relações ou prejudica atividades importantes da vida cotidiana, buscar avaliação de um profissional de saúde mental pode ajudar a compreender o que está acontecendo.

Mais do que simplesmente reduzir horas diante da tela, o desafio é construir uma relação com o mundo digital na qual a tecnologia permaneça a serviço da vida — e não a vida organizada em função da tecnologia.

 

2026 Dra. Rita Cytryn